Quarta, 08 Março 2017 16:18

Cardeal leva esperança à República Centro-Africana

Escrito por Eva-Maria Kolmann
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Cardeal Dieudonné Nzapalainga fala às multidões. Cardeal Dieudonné Nzapalainga fala às multidões.

O Cardeal Dieudonné Nzapalainga, Arcebispo de Bangui, percorreu recentemente todas as dioceses da República Centro-Africana. Seu trajeto começou na diocese de Bouar, no noroeste do país. Enquanto esteve lá, de 22 a 24 de fevereiro, visitou a paróquia de Bozoum e a cidade de Bocaranga, onde há pouco, no início de fevereiro, protagonizou um grave episódio de violência. Seu programa também incluiu encontros com os chamados rebeldes. O padre Aurelio Gazzera, pároco de Bozoum, acompanhou o Cardeal. No dia 26 de Fevereiro, ele falou com a ACN sobre esta visita.

ACN: Como foi para o senhor a experiência da visita do Cardeal Nzapalainga em sua paróquia?

Padre Aurelio Gazzera: A visita do Cardeal me lembrou um pouco a visita do Papa à Bangui há um ano. A alegria e esperança que as pessoas exalaram foi muito grande! As pessoas deram ao Cardeal uma volumosa recepção. Mesmo ao longo do percurso de 125 km que viajamos com o Cardeal em sua viagem de Bozoum para Bocaranga, ele teve que parar em cada vila, já que o povo estava esperando por ele ao longo da estrada e queria ouvir uma palavra dele e receber sua bênção. Foi profundamente emocionante ver como o povo realmente queria ouvir o Cardeal. E esta escuta, eu realmente acredito e espero, foi para muitos deles o início de uma nova jornada, assim como foram as palavras do Papa para muitas pessoas quando ele visitou o nosso país em novembro de 2015.

O senhor também participou, juntamente com o Cardeal, de duas reuniões com os “rebeldes” do Antibalaka. O que poderia nos dizer sobre eles?

Os rebeldes estavam armados, alguns deles com canhões caseiros feitos de canos de água e outros com Kalashnikovs. Durante a guerra, os Antibalaka eram os oponentes dos rebeldes de Seleka. Desde então, eles se tornaram um grupo misto de homens que inicialmente tomaram as armas para proteger as suas famílias e as suas aldeias, mas a eles se juntaram alguns jovens que buscam lucrar com a situação e vivem de roubo e extorsão. Para eles, o Cardeal dirigiu um calmo, mas enfático, convite para mudar suas vidas e não se deixarem enganar pelas coisas materiais e dinheiro, e sobretudo por aqueles que os incitavam à violência, mas logo os abandonam.

O senhor mesmo é muito experiente em negociar com grupos armados e, de fato, já conseguiu várias vezes convencer os grupos rebeldes a se retirarem, impedindo assim derramamento de sangue e protegendo a população civil. O senhor pôde falar com os rebeldes nesta ocasião. O que disse a eles?

Convidei-os a refletir sobre o fato de que aqueles que semeiam a violência não colherão mais do que a morte. E eu disse que chegou o momento de começar a pensar em reconstruir. Pedi-lhes também que pensassem no fato de que, na realidade, estavam apenas servindo aos interesses de pessoas sem escrúpulos, das quais eles próprios seriam as primeiras vítimas! Falei também que muitas vezes eles não pensam nas consequências de suas ações, quando causam destruição, exploram outras pessoas e queimam casas.

O senhor acredita que essas reuniões com os rebeldes poderá alcançar algo?

De um modo geral, pareceu-me que os homens estavam escutando muito atentamente, e pelo menos alguns deles pareciam sentir o anseio de buscar novos caminhos de paz e de mudança de vida. Levará tempo, mas quando se está disposto a dialogar, é sempre um grande passo dado adiante e que pode levar a uma real mudança.

Bocaranga foi até pouco tempo cenário de ataques violentos. Assim, essa não tinha como ser uma viagem sem perigo...?

Sim... no dia 2 de fevereiro, nômades da tribo Fulbe mataram 21 pessoas e feriram várias outras. Eles queimaram o mercado e muitas das lojas, saquearam os escritórios de várias agências de caridade e espalharam medo e terror em torno deles. As tropas da ONU não fizeram nada para detê-los, apesar de terem sido informadas da situação. Foi por isso que a visita do Cardeal foi a primeira ocasião feliz e alegre depois desses terríveis acontecimentos. No entanto, ir lá foi um ato que exigiu grande coragem por parte do Cardeal. As forças da ordem estavam completamente ausentes, e no caminho eu mesmo me dirigi à frente do veículo do Cardeal para que eu pudesse chegar nos locais primeiro e, assim, identificar e resolver quaisquer potenciais problemas de segurança. Graças a Deus, tudo correu bem, mesmo com alguns rebeldes do Antibalaka andando armados perto de onde estávamos, e também tendo que passar por uma barreira rebelde, 5 km antes da cidade. No entanto, da parte deles, isso era mais uma demonstração de seu próprio poder do que intenção de realmente fazer algo ruim.

Qual foi a mensagem mais importante do Cardeal?

Eu diria que suas mensagens mais importantes foram estas: primeiro, "Tenham confiança em Deus; Não tenham medo!" Esta era também a mensagem da leitura do Evangelho daquele dia. E então: "Tenham uma visão mais perspicaz e não se limitem a procurar satisfação em coisas materiais, mas tenham uma visão de longo prazo! Isso tornará possível ter um novo país, uma nova vida para todos!"

Num país que sofre de conflitos armados, pobreza extrema e fracasso total do Estado, a Igreja tem um papel importante a desempenhar. O Cardeal falou também sobre o papel da Igreja, e em particular o dos sacerdotes e dos religiosos?

Houve um momento muito intenso e emocionante em Bocaranga quando nos reunimos junto ao Cardeal na capela das irmãs, com cerca de 20 religiosos de várias instituições diferentes. Entre eles haviam noviços muito jovens, irmãs que tinham acabado de fazer os seus votos permanentes, até os missionários idosos que tinham trabalhado na República Centro-Africana durante 40 anos ou mais. Todos permaneceram em seus postos, especialmente durante esses quatro anos de guerra – apesar das ameaças, dos ataques e dos saques, das tentativas de intimidação. O cardeal expressou enfaticamente a gratidão da Igreja e do povo por esta persistente perseverança, apesar da guerra. E ele nos contou sobre algo que aconteceu em uma paróquia em Bangui no auge da guerra. Um homem lhe disse: "Eu fiquei porque podia ver a luz acesa no convento das irmãs. E eu sabia que se elas estavam ali, então eu poderia ficar também!

É verdade que a Igreja está fazendo muito. Ela está construindo escolas, hospitais, igrejas, capelas... E também há o trabalho que ela faz ao dar testemunho e elevar sua voz. Mas o mais importante é simplesmente estar ao lado do povo. Ter as portas de nossas paróquias e casas de missão abertas a todos que estavam, ou estão, em necessidade. Isso também é evangelização. Significa tornar concreta a presença e o amor de Deus Pai!

Neste último ano, com a ajuda da ACN, o senhor conseguiu reformar e ampliar a sua paróquia em Bozoum, onde recebeu o Cardeal. Quão importante é esta igreja para você e para os fiéis?

Para nós foi uma grande alegria poder receber o Cardeal em nossa "nova" igreja. O fato de termos sido capazes de tornar esse sonho realidade foi em grande parte graças à generosidade dos benfeitores da ACN. Mas eu também me esforcei para enfatizar que cada um dos fiéis da nossa paróquia deveria contribuir com um pouco de seu coração e de sua fé para ajudar na reforma, e muitos deles ajudaram a trazer areia, pedra, cascalho e comida como um meio de contribuir. A construção de uma igreja é um momento muito importante para uma comunidade cristã, mas não apenas para eles. Mesmo muitas pessoas que não eram cristãs queriam fazer uma pequena contribuição ou, pelo menos, mostrar um gesto de simpatia, e isso foi algo muito especial e muito emocionante para nós.

Queríamos que nossa igreja ficasse linda - muito bonita - porque a beleza fala de dignidade. E neste momento na República Centro-Africana é extremamente necessário redescobrir a dignidade de cada ser humano individual. A beleza da Igreja deve refletir a beleza de Deus, e com ela nossa própria beleza como fiéis católicos. Reflete que somos cristãos! Estamos muito gratos a todos que nos ajudaram a realizar este milagre!


Na sua campanha da quaresma deste ano, a ACN volta seus olhos para a África, acreditando no apoio que deve ser dado à Igreja nesse país, mas também a todo continente. Saiba mais, acessando a página sobre a campanha.
Lido 429 vezes Última modificação em Segunda, 13 Março 2017 12:23

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